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Tumorais
O marcador tumoral perfeito seria aquele que fosse produzido somente
por um tecido e secretado em quantidades mensuráveis em fluidos corpóreos,
só estaria positivo na presença de uma neoplasia maligna e
deveria ser capaz de identificá-la antes de sua expansão além
do seu local de origem. Seus níveis séricos deveriam refletir
o tamanho do tumor, permitir caracterizar seu tipo e estadiamento e refletir
respostas ao tratamento e à progressão da doença. Esse
marcador tumoral perfeito ainda não existe. Se existisse, poderia
ser usado como triagem para a presença da neoplasia oculta em indivíduos
assintomáticos, permitindo o diagnóstico e o tratamento precoce.
Na prática, a maioria dos marcadores tumorais é achada em
baixas concentrações em indivíduos normais e em quantidades
mais altas durante processos inflamatórios e outras condições
malignas e não-malignas. Por isso, seu papel mais importante não
está no diagnóstico da neoplasia, e sim como um co-fator,
orientador e confirmatório, do diagnóstico, com um papel definido
na avaliação das recidivas, na resposta à terapia e
na avaliação do prognóstico de evolução
do tumor.
Os marcadores tumorais são divididos em 5 categorias:
- Enzimas e proteínas
- Glicoproteínas
- Glicoproteínas mucinas
- Hormônios
- Moléculas do sistema imune.
Enzimas e Proteínas
A NSE (enolase neurônio-específica), na sua forma gama, está
elevada nos soros dos pacientes com neuroblastoma, carcinoma pulmonar
de pequenas células, melanoma, carcinoma de células da ilhota
pancreática e hipernefroma. No neuroblastoma, o NSE se correlaciona
com o prognóstico, mas não é útil para o acompanhamento
das recidivas. O uso primário de NSE está no carcinoma pulmonar
de pequenas células. Cerca de 70% desses pacientes apresenta níveis
altos de NSE. O NSE pode ser usado para monitorar os efeitos da terapia
e a avaliação de recaídas antes das evidências
clínicas.
Elevações da desidrogenase láctica são notáveis
em quase todas as malignidades. Os valores encontrados na neoplasia se
sobrepõem com valores em doenças benignas. Não tem
nenhum valor como um marcador tumoral de triagem, entretanto, tem utilidade
limitada na monitorização da terapia em malignidades hematológicas.
São encontrados níveis extremamente altos nos casos de leucemias
em crianças e nos casos de linfoma não-Hodgkin nos quais
o tratamento fracassou.
Os níveis de ferritina podem elevar-se em neoplasias, especialmente
na doença de Hodgkin, nas leucemias agudas, nos carcinomas de mama,
fígado, pulmão, cólon e reto, em tumores de próstata
e testículos e no mieloma múltiplo. São úteis
na monitorização da evolução da doença.
Os níveis de fosfatase alcalina são úteis em neoplasias
para avaliar a presença de metástases envolvendo fígado
e osso. Valores muito elevados são vistos em pacientes com lesões
osteoblásticas, como as encontradas no carcinoma de próstata
com metástase óssea. Elevações menores são
vistas quando as lesões são osteolíticas, como as
encontradas no carcinoma metastático de mama. Outras condições
malignas com infiltração hepática como leucemias,
linfomas e sarcoma podem cursar também com elevação
da fosfatase alcalina. Sua elevação pode ocorrer também
pela presença de isoformas patológicas.
Os níveis de fosfatase ácida podem estar alterados em pacientes
com carcinoma de próstata. Os que se encontram confinados dentro
da cápsula normalmente apresentam níveis normais; já
nos casos com metástases, mais da metade dos pacientes apresenta
níveis elevados. Níveis alterados podem ser observados em
pacientes com hipertrofia benigna de próstata, retenção
urinária de monta e após manipulação prostática.
A fração não-prostática encontra-se elevada
em condições em que existe um hipermetabolismo ósseo,
como nas metástases ósseas no câncer de mama, pulmão,
tireóide, mielomas e em situações de grande destruição
de eritrócitos e de plaquetas em patologias hematológicas
malignas.
Glicoproteínas
As glicoproteínas são marcadores tumorais derivados de tecido
fetal ou placentário, encontrados em pequenas quantidades no tecido
de adulto normal. Portanto, esses marcadores não são específicos
para nenhum tumor. Exemplos de marcadores tumorais dessa classe são
antígeno carcinoembrionário (CEA), alfafetoproteína
(AFP), gonadotrofina coriônica humana, (HCG), antígeno polipeptídio
tecidual (TPA), antígeno do carcinoma de células escamosas
(SCC-A) e antígeno prostático específico (PSA).
O CEA foi primeiro identificado em 1965 em extratos de carcinoma de cólon
humano e em células de cólon fetais. Ele existe em baixos
níveis na mucosa do cólon normal, pulmão e tecido
da mama, e é achado no soro associado com várias malignidades.
É usado especialmente no monitoramento de tumores gastrointestinais,
particularmente no câncer de colorretal. Cerca de 63% de pacientes
com câncer de colorretal têm elevações de CEA.
Quando presente, o CEA se correlaciona histologicamente e com a fase do
tumor. Níveis pré-operatórios muito altos são
prognósticos de altas taxas de retorno e baixas taxas de sobrevivência.
Se o tumor secreta CEA, este pode ser usado para monitorar a eficácia
da remoção cirúrgica do tumor, bem como para monitorar
a recidiva da doença.
Sua avaliação não é recomendada para screening
por causa da incidência de elevação de CEA em outras
doenças inflamatórias.
Consultar
Antígeno Carcinoembrionário.
A AFP é a principal glicoproteína plasmática precoce
do feto humano. Encontra-se elevada no soro fetal, no soro materno e no
soro de adultos com hepatomas e teratoblastomas testiculares.
Nem todos os hepatomas ou teratoblastomas produzem AFP, mas, se sintetizam,
o fazem em grandes quantidades. Nem sempre as elevações
de AFP estão associadas a malignidade; os níveis podem estar
elevados em doenças inflamatórias do fígado e intestino.
É inútil como screening por causa das significativas elevações
em condições benignas.
Consultar Alfa-1-Fetoproteína.
O HCG é secretado através do sinciciotrofoblasto placentário.
A cadeia alfa dessa molécula compartilha seqüência homóloga
com hormônio luteinizinante (LH), mas a cadeia beta é única.
O beta-HCG é normalmente encontrado no soro e na urina durante
a gravidez. Porém, pode também estar presente em 10% dos
pacientes com doença inflamatória intestinal benigna, úlcera
duodenal e cirrose hepática. Além disso, o beta-HCG é
achado em quase 100% dos pacientes com tumores trofoblásticos e
em 10% a 40% de tumores de células não-germinativas, como
carcinoma do pulmão, mama, trato GI e ovário. Em pacien-tes
com tumores trofoblásticos (células germinativas) comoseminomas,
teratomas e coriocarcinomas, o beta-HCG é muito útil diagnosticando,
monitorando terapia, prevendo o aparecimento de metástases e predizendo
o fracasso de tratamento ou recidivas da doença. Quando avaliado
em combinação com AFP, torna-se particularmente útil
na detecção dos seminonas.
Consultar Gonadotrofina
Coriônica.
O TPA é achado no soro de pacientes com carcinoma de células
escamosas de cabeça e pescoço, pulmão e bexiga, mas
também é encontrado em condições benignas,
processos cicatriciais, gravidez e doenças inflamatórias.
Além disso, o TPA pode ser achado em 20% das doenças benignas
da mama, sendo por isso não-específico para o diagnóstico
ou a monitoração de câncer.
O SCC-A, subfração do antígeno tumoral TA-4, está
elevado nos carcinomas de células escamosas do útero, endométrio
e em outros carcinomas da área genital. TA-4 e SCC-A também
estão presentes em níveis altos em tumores de células
escamosas de cabeça e pescoço, pulmão e cérvix.
O SCC-A é útil na monitorização da terapia
nesses tumores, mas não para o diagnóstico.
O PSA é uma glicoproteína com atividade enzimática
proteolítica que dissolve gel seminal depois da ejaculação.
PSA é achado em tecido prostático normal, benigno e maligno
e no plasma seminal, e é produzido no citoplasma das células
acinares prostáticas e no epitélio ductal. Níveis
de PSA são elevados no câncer de próstata. Também
são achados níveis de PSA altos na hipertrofia benigna de
próstata e nas prostatites agudas ou crônicas. Os níveis
de PSA correlacionam-se diretamente com o volume da próstata, com
a fase do câncer e com a resposta à terapia. O carcinoma
de próstata é a única forma de câncer em homens
nos quais PSA é detectável no soro. Por isso, a dosagem
de PSA é recomendada, em combinação com o exame retal
digital, para investigação do câncer de próstata.
Glicoproteínas Mucinas
Glicoproteínas mucinas são antígenos de superfície
celular de alto peso molecular. Elas são compostos por 60 a 80%
de carboidrato e têm uma semelhança estrutural com os antígenos
de grupo sangüíneo Lewis A e B. As glicoproteínas mucinas
expressas na superfície epitelial incluem CA 15-3, MCA, CA 19-9
e CA 125.
O CA 15-3 é expresso durante diferenciação mamária
e é encontrado em células mamárias lactentes, epitélio
pulmonar, carcinoma de mama, ovário, pâncreas, estômago
e fígado. Podem ser encontrados níveis baixos de CA 15-3
em condições não-malignas como hepatites crônicas,
cirrose, sarcoidose, tuberculose e lúpus eritematoso sistêmico.
São detectados níveis elevados de CA 15-3 em carcinomas
de mama, ovário, pâncreas, estômago e fígado.
Sua utilização está indicada no acompanhamento do
câncer de mama, especialmente no rastreamento da presença
de metástases ósseas. Seus níveis diminuem em resposta
a quimioterapia. Medidas consecutivas do CA 15-3 têm predito recaídas
de câncer de mama antes da demonstração pelo exame
clínico.
Consultar CA 15-3.
O MCA é achado na maioria das células de câncer de
mama, indiferentemente do grau histológico. Níveis são
mais altos em metástases do carcinoma de mama, correspondendo às
alterações encontradas nos níveis do CA 15-3.
O CA 19-9 é uma muciglicoproteína idêntica em estrutura
com antígeno Lewis A, e a expressão do CA 19-9 depende da
expressão do antígeno Lewis. O CA 19-9 é encontrado
nas pancreatites agudas e crônicas, na doença hepática
benigna, no câncer de pâncreas e outras patologias malignas.
Sua maior indicação está no acompanhamento do carcinoma
de pâncreas. As diminuições dos valores séricos
depois de ressecção cirúrgica demonstram que essas
foram eficazes, e a avaliação periódica prevê
a recorrência 3 a 9 meses antes de sintomas clínicos aparecerem.
Consultar
CA 19-9.
O CA 125 é uma muciglicoproteína grande com baixo teor de
carboidrato que se expressa no epitélio do cólon embrionário
e é encontrada em várias doenças benignas e malignas.
O monitoramento dos níveis de CA 125 é muito útil
durante tratamento de câncer ovariano para mulheres de todas as
idades.
Consultar CA 125.
Hormônios
A calcitonina é um hormônio produzido pelas células
C da tireóide e desempenha um papel na regulação
do cálcio. A calcitonina está presente em altas concentrações
na gravidez e em várias do-enças benignas, como hipertireoidismo,
doença de Paget e anemia perniciosa. Além disso, a calcitonina
está elevada em neoplasias malignas específicas como câncer
de mama, hepatoma, hipernefroma e câncer do pulmão, mas está
notavelmente elevada no carcinoma medular da tireóide (CMT). Como
um marcador tumoral para CMT, o nível de calcitonina se correlaciona
com a gravidade da doença e é útil para monitorar
a terapia, além de poder ser usado como triagem nas famílias
com transmissão autossômica dominante de CMT.
A tireoglobulina é uma glicoproteína produzida pelas células
foliculares da tireóide e é necessária para proteólise
e liberação da tiroxina (T4) e da triiodotironina (T3) na
circulação. Níveis altos de tireoglobulina estão
presentes em quase todas as desordens da tireóide, sendo portanto
inúteis para screening de doença benigna ou maligna. Porém,
a tireoglobulina é um marcador tumoral útil, depois de tireoidectomia
total ou radioterapia, quando níveis de tireoglobulina podem predizer
o aparecimento de metástases.
O ácido vanil mandélico (VMA) e o ácido homovanílico
(HVA) são encontrados na urina nos casos de feocromocitoma e neuroblastoma.
Os níveis pré-tratamento se correlacionam com a fase da
doença, e as determinações consecutivas são
úteis para o monitoramento da terapia.
O PTH-RP (paratormônio, proteína relacionada) é secretado
principalmente por tumores que cursam com hipercalcemias malignas, como
carcinoma epidermóide de pulmão, carcinoma de mama e do
córtex renal e outros tumores epiteliais.
Moléculas do sistema imune
As imunoglobulinas monoclonais (proteínas M) foram os primeiros
marcadores tumorais conhecidos. Elas são reconhecidas pela eletroforese
de proteína do soro ou da urina e caracterizadas por imunofixação
no soro ou na urina como imunoglobulina (IgG , IgA, IgM, IgD, IgE, ou
cadeias leves livres k (kappa) ou l (lambda). As proteínas M estão
presentes em quase 1% dos adultos, mas cerca de 25% dessas proteínas
tem significado indeterminado. Cerca de 50% dessas proteínas M
identificadas indica o diagnóstico de mieloma múltiplo.
Aproximadamente 4% dos pacientes com imunoglobulinas monoclonais têm
macroglobulinemia de Waldenström, doença maligna de linfócitos
B que secretam grandes quantidades de IgM. Quase 15% dos pacientes com
proteínas M têm doença maligna linfoproliferativa
de células B, como leucemia linfocítica crônica ou
linfoma.
A beta 2-microglobulina fica situada na superfície da membrana
de quase todas as células nucleadas e é liberada na circulação
durante turnover da membrana. A B2-M ajuda a predizer os fracassos de
tratamento em pacientes com linfoma e mieloma múltiplo, guardando
relação com o tamanho do tumor, e tem valor prognóstico.
Oncogenes e produtos de genes como marcadores tumorais
A próxima geração de marcadores tumorais descoberta
deverá incluir a descoberta de mutações em oncogenes,
quantificações de proteínas codificadas através
desses oncogenes, ou talvez auto-anticorpos produzidos pelas oncoproteínas
na translocação cromossomial, algumas das quais podem ser
descobertas através de técnicas de citogenética e
também através de estudos usando hibridização
com sondas radioativas, inclusive bcr/abl na leucemia mielogênica
crônica, bcl-2 em linfomas foliculares e myc em linfomas e outras
leucemias
Genes supressores do tumor (TSGs) regulam o crescimento das células,
parando sua proliferação. Mutações em TSGs
conhecidas envolvidas com neoplasias incluem inativação
do gene de Rb encontrado no retinoblastoma familiar, gene de APC em polipose
familiar do cólon, WT-1 no tumor de Willms e p53 encontrado em
uma grande variedade de tumores (epiteliais, leucemia, linfoma, sarcoma
e neurogênicos). Um ensaio imunofluorimétrico para quantificação
da proteína p53 tem demonstrado sua presença no câncer
ovariano e no câncer de mama.
Como já citado, não há nenhum marcador tumoral perfeito,
e, por isso, não devem ser usados para screening da presença
de neoplasias malignas.
O PSA é atualmente o único marcador aprovado pelo FDA, em
combinação com o toque retal para triagem para câncer
de próstata. A AFP é apropriadamente usada como um teste
de triagem em populações de risco (chineses, japoneses e
esquimós do Alasca). A calcitonina pode ser usada como um teste
de screening para câncer em famílias de pacientes com carcinoma
medular da tireóide.
Vários testes são eficazes no diagnóstico diferencial
de tumores específicos. A AFP e beta-HCG são úteis
no diagnóstico diferencial de tumores de células germinativas
não-seminomas, quando utilizadas na colocação clínica
apropriada. O CA 125 é usado na avaliação de massas
ovarianas, mas com reservas. Embora CA125 tenha se mostrado elevado antes
da descoberta clínica de câncer ovariano, menos de 50% dos
pacientes com doença inicial apresentam elevações
nos níveis de CA 125. Por outro lado, em mulheres na pré-menopausa,
várias condições benignas são associadas a
elevações moderadas de CA 125. Uma combinação
de ensaios que usam CA 125, CA 15-3 e TAG72 (anticorpo monoclonal específico
para fragmento de gonadotrofina urinária) demonstrou, em estudo
realizado, uma especificidade de 99,9%, detectando câncer ovariano
em estágios precoces, mas os números de pacientes foram
considerados insuficientes para extrapolar o resultado para a população
em geral.
Proteínas M detectadas por eletroforese de proteína no soro
não são úteis para screening para mieloma, porque
só 50% dos pacientes que apresentam proteína monoclonal
têm mieloma múltiplo. O diagnóstico, o prognóstico
e a monitorização da terapia dependem não só
da descoberta de uma proteína monoclonal mas também da caracterização
do tipo de imunoglobulina. Pacientes com mieloma IgA apresentam taxa de
sobrevida significativamente reduzida e complicações mais
severas da doença do que os pacientes com mieloma IgG ou doença
de cadeias leves.
Os marcadores tumorais citados têm aplicabilidade na monitorização
da progressão da doença ou da eficácia da terapia.
A freqüência da monitorização não é
padrão, mas uma freqüência apropriada deveria testar
mensalmente no período pós-operatório, durante os
primeiros 6 meses, a cada 2 meses durante mais 6 meses, trimestralmente
durante o ano seguinte e 2 vezes ao ano nos anos subseqüentes.
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